Por Igor Araújo
Diz o ditado do saudoso Eduardo Galeano que o futebol é a única religião onde o milagre precede a fé. Mas, ao olharmos para a lista de Carlo Ancelotti que se aproxima para a Copa de 2026, estamos prestes a testar o limite da ilusão. De um lado, temos Estêvão, um prodígio de 19 anos que, mesmo com a coxa direita remendada por uma lesão de Grau 4, exala a urgência do agora. Do outro, Neymar, o eterno herdeiro de um trono que ele mesmo transformou em uma confortável espreguiçadeira na Vila Belmiro. A pergunta não é se Neymar pode ir. A pergunta é: por que ainda fingimos que ele deve?
Vamos aos fatos, pois os números não costumam frequentar camarotes. Estêvão entregou ao Chelsea 36 jogos de pura eletricidade na temporada europeia. Ele não estava enfrentando o Novorizontino no sol das 16h; ele estava encarando a elite do Manchester City e a frieza da UEFA Champions League. Sua média de uma participação em gol a cada 139 minutos em solo britânico é o certificado de garantia que a Seleção precisa. Já o nosso “Menino Ney”, que aos 34 anos mantém o apelido como quem segura um RG falso, nos oferece a “eficiência do descanso”. Em 2026, ele entrou em campo meras 10 vezes. Sua média de participação em gol é excelente, uma a cada 122 minutos, admito. Mas é uma eficiência de laboratório, construída em um ambiente onde o técnico Cuca precisa pedir cautela porque o craque não suporta o rigor de quarta e domingo. curioso, não? O homem que quer carregar o hexa nas costas não consegue carregar o próprio peso em uma viagem para enfrentar o Deportivo Cuenca sem precisar de um check-up completo no dia seguinte.
Estêvão é o artilheiro do ciclo Ancelotti. Com 5 gols em 11 jogos, ele fala a língua do futebol moderno, aquela onde se corre, se marca e, veja só, se ganha. Enquanto isso, a última imagem de Neymar na Seleção é… bem, não há imagem. Enquanto Estêvão se lesiona no limite da exaustão contra o United, Neymar perde treinos por virose um dia após ser visto em um boteco santista. A diferença entre a lesão do guerreiro e a fragilidade do veterano nunca foi tão nítida.
“Mas Estêvão está machucado”, gritam os saudosistas. Sim, uma lesão de Grau 4 é um abismo. Mas prefiro um jovem de 19 anos em processo de cura acelerada, que provou suportar 3.000 minutos de alta intensidade na temporada, do que um craque que vive em estado de preservação. Levar Neymar para a Copa de 2026 é apostar que um motor de 2014 vai aguentar uma corrida de Fórmula 1 apenas porque a carcaça ainda é bonita. Levar Estêvão é entender que o futebol mudou. Ancelotti disse que o futebol não é uma ciência exata. Ele tem razão. Mas o bom senso, este sim, deveria ser. Se a vaga for por mérito, Estêvão vai. Se for por nostalgia, comprem uma passagem de primeira classe para o Neymar, mas como espectador. O Brasil já cansou de esperar pelo milagre de quem prefere o descanso à glória.
