Dunga ou Tite: quem deixou a seleção brasileira mais distante do hexa?

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Apenas 6 derrotas para cada treinador e eliminações nas quartas de final mantém o jejum desde 2002


Em ano de Copa do Mundo, o torcedor brasileiro inevitavelmente retoma uma pergunta que atravessa gerações: por que a seleção, que construiu parte de sua identidade sobre o futebol ofensivo e vencedor, não consegue repetir o desempenho que levou ao pentacampeonato em 2002? Desde então, a equipe alternou bons ciclos com eliminações que interromperam a expectativa de voltar à final.

Entre esses ciclos, dois períodos ainda provocam debate: as passagens de Dunga e Tite pelo comando da seleção brasileira. Em comum, ambos chegaram após frustrações anteriores, apresentaram números consistentes e deixaram o cargo depois de eliminações nas quartas de final da Copa do Mundo, fase que passou a representar um obstáculo recorrente para o Brasil.

Início vencedor

Foto: Wilton Junior/Estadão

Dunga assumiu a seleção em 2006, logo após a eliminação para a França, em Frankfurt, quando Thierry Henry marcou o gol que encerrou o ciclo de uma equipe que reunia nomes como Ronaldo, Ronaldinho e Kaká. Sem experiência prévia como treinador, o ex-capitão do tetra foi uma escolha que gerou desconfiança inicial, mas o início de trabalho reduziu parte das críticas. Em 2007, o Brasil venceu a Copa América ao superar a Argentina por 3 a 0 na final, resultado que chamou atenção não apenas pelo placar, mas pelo contexto: a equipe brasileira não contava com alguns dos principais jogadores da geração e o ataque tinha nomes como Vagner Love e Júlio Baptista, enquanto os argentinos reuniram nomes como Riquelme e Messi.

Dois anos depois, a seleção conquistou a Copa das Confederações ao vencer os Estados Unidos por 3 a 2, após sair perdendo por 2 a 0 no intervalo. A reação naquele jogo consolidou a imagem de um time competitivo, ainda que criticado por priorizar organização defensiva e transições rápidas em vez de um estilo mais ofensivo.

Eliminação em 2010 e Fim do ciclo

Na Copa do Mundo de 2010, o Brasil chegou com campanha segura nas eliminatórias e confiança elevada. A eliminação para a Holanda, no entanto, alterou o rumo da avaliação sobre o trabalho. Após abrir o placar com Robinho, a equipe sofreu a virada com dois gols de Wesley Sneijder, em uma partida marcada por queda de rendimento no segundo tempo e pela expulsão de Felipe Melo. O lance do segundo gol holandês, em uma bola aérea que gerou falha de comunicação entre defesa e goleiro, tornou-se símbolo da perda de controle emocional da equipe naquele confronto.

Dunga deixou o cargo após a eliminação. Em 2014, após a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, a Confederação Brasileira de Futebol optou por seu retorno. A segunda passagem foi mais curta e menos consistente, encerrada após a eliminação ainda na fase de grupos da Copa América de 2016, em derrota por 1 a 0 para o Peru, marcada por um gol irregular validado pela arbitragem. Ao todo, Dunga comandou a seleção em 67 partidas, com 49 vitórias, 12 empates e 6 derrotas.


Tite organiza a seleção, mas campanha também termina nas quartas de final


(Kin Saito/CBF)

Tite assumiu o comando em 2016, também após a saída de Dunga, em um momento de instabilidade institucional e questionamentos sobre o desempenho da equipe nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Com trajetória recente de títulos no Corinthians, chegou com respaldo e rapidamente reorganizou o time. A seleção apresentou sequência de vitórias e se classificou com antecedência para o Mundial da Rússia.


Na Copa de 2018, o Brasil enfrentou a Bélgica nas quartas de final. O jogo ficou marcado por um primeiro tempo em que a equipe sofreu dois gols, incluindo um gol contra de Fernandinho após escanteio. Na etapa final, Renato Augusto diminuiu o placar e teve uma oportunidade clara para empatar, finalizando por cima do gol em lance que ainda é lembrado como um dos momentos decisivos da partida. Também houve reclamação por um possível pênalti não marcado sobre Gabriel Jesus, episódio que ampliou a percepção de que a seleção teve dificuldades para reagir a cenários adversos contra equipes europeias.

Apesar da eliminação, Tite permaneceu no cargo e iniciou novo ciclo. Em 2019, o Brasil conquistou a Copa América disputada em casa ao vencer o Peru na final, em uma campanha sem Neymar, lesionado antes do torneio. Dois anos depois, a seleção perdeu a final para a Argentina no Maracanã, resultado que encerrou um período de invencibilidade da equipe e representou a primeira conquista de Messi com a seleção principal.

Na Copa do Mundo de 2022, o Brasil voltou a ser eliminado nas quartas de final, desta vez diante da Croácia. A partida parecia encaminhada após o gol de Neymar na prorrogação, em jogada individual que o colocou entre os maiores artilheiros da história da seleção. Nos minutos finais, porém, a equipe sofreu o empate em contra-ataque após avançar com vários jogadores ao campo ofensivo. A decisão por pênaltis consolidou a eliminação e gerou críticas à gestão emocional do time naquele momento do jogo.

O ciclo de Tite terminou com 81 partidas, 60 vitórias, 15 empates e 6 derrotas, além do título da Copa América de 2019. Os números indicam desempenho consistente ao longo do período, mas as eliminações em momentos decisivos mantiveram o debate sobre a capacidade da seleção de competir em nível máximo contra adversários europeus em jogos eliminatórios.

Poucas derrotas e eliminações nas quartas de final

A comparação entre os dois períodos mostra um dado curioso: tanto Dunga quanto Tite sofreram apenas seis derrotas no comando da seleção brasileira. O número, isoladamente, sugere consistência, mas a Copa do Mundo não é uma competição de longo prazo. Trata-se de um torneio de tiro curto, decidido em detalhes, no qual uma única falha pode encerrar um ciclo de quatro anos.

Nos dois casos, o Brasil chegou competitivo, com elencos qualificados e boas campanhas antes do Mundial, mas não conseguiu transformar esse desempenho em presença nas semifinais. O retrospecto mostra que regularidade, por si só, não garante avanço em mata-mata de alto nível.

A pergunta é: quem teve o pior desempenho no comando da seleção, Dunga ou Tite? E, olhando para frente, resta observar se, na Copa de 2026, Carlo Ancelotti conseguirá manter um aproveitamento elevado sem repetir o desfecho que tem marcado o futebol brasileiro nas últimas edições do torneio, a eliminação nas quartas de final.

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